Este estudo analisa a segregação socioespacial e o racismo ambiental na Península de Itapagipe, em Salvador, evidenciando como comunidades periféricas, majoritariamente negras, enfrentam exclusão territorial, infraestrutura precária e vulnerabilidade frente às mudanças climáticas. Esse estudo revela uma desigualdade urbana e degradação ambiental, destacando que a segregação não ocorre ao acaso, mas é resultado de processos históricos e políticos.
O trabalho se apoia nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente nos ODS 10 (Redução das Desigualdades), 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e 13 (Ação Contra a Mudança Global do Clima), reforçando a necessidade de um planejamento urbano mais inclusivo. A análise busca contribuir para o debate acadêmico e político sobre justiça ambiental, propondo estratégias para mitigar os impactos das desigualdades territoriais e climáticas.
A vulnerabilidade socioambiental na cidade não é distribuída ao acaso. Regiões fora da zona de centralidade possuem infraestrutura reduzida e são habitadas pela população que não pode arcar com custos de habitar nos centros e litorais Santos (2000). Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (2022) e o Instituto Pólis (2023), os bairros com menor renda, maior população negra e menor acesso a serviços públicos básicos são os mais afetados por alagamentos, deslizamentos e ilhas de calor. Essa realidade evidencia a presença de racismo ambiental, no qual as populações negras e pobres sofrem mais intensamente os efeitos das mudanças climáticas, sem acesso a políticas de mitigação eficazes (Acselrad, 2002; Almeida, 2020)
A Península de Itapagipe, situada na Cidade Baixa de Salvador, Bahia, é um território marcado por profundas camadas históricas, sociais e urbanas. Desde o século XIX, a região foi palco de intensa atividade industrial, com fábricas que atraíram trabalhadores e moldaram bairros operários como Mangueira, originado dos antigos alagados. Essa ocupação popular contrasta fortemente com áreas vizinhas como Bonfim e Ribeira, tradicionalmente habitadas por classes mais abastadas e beneficiadas por infraestrutura urbana e investimentos públicos, como igrejas, saneamento e vias pavimentadas.
Estudos recentes apontam que partes da península enfrentam risco de desaparecimento físico nas próximas décadas, devido à elevação do nível do mar e à precariedade ambiental. Além disso, os indicadores socioeconômicos revelam uma desigualdade histórica persistente, onde a população de baixa renda convive com vulnerabilidades múltiplas, desde moradia precária até acesso limitado a serviços básicos.
Itapagipe, portanto, não é apenas um espaço urbano; é um território de memória, resistência e exclusão. Estudá-la é fundamental para compreender os processos de segregação socioespacial em Salvador, os legados da industrialização e os desafios contemporâneos da justiça urbana e ambiental.
